2019 em Livros

Em 2018, eu encerrei o ano escrevendo um pouco sobre as leituras que fiz durante o ano. Acabou que funcionou bem rever o que li e aprendi durante o ano. Escrever sobre isso no último dia do ano passou a ser uma ótima oportunidade para refletir sobre o fim de mais um ciclo de crescimento pessoal por meio do aprendizado. Nesse post, eu te conto como foi 2019 em livros para mim.

Essa é a lista completa das minhas leituras nesse ano de 2019 (alguns foram ouvidos via audiobook):

A Vida Intelectual (Sertillanges)
Frankenstein ou o Prometeu Moderno (Mary Shelley)
Thinking in Bets (Annie Duke)
A Ética – Textos Selecionados (Aristóteles)
The Daily Stoic: 366 Meditations on Wisdom (Ryan Holiday)
A Gift From Pandora’s Box: The Software Crisis (María Valdez)
Dark Horse (Todd Rose)

The Art of Self-Education: How to Get a Quality Education for Personal and Professional Success Without Formal Schooling (Race Bannon)
Inovação não Violenta (Fernanda Dutra) -> ainda não publicado
Meditações do Quixote (Ortega Y Gasset)
A Peste (Albert Camu)
How to Teach Smart People to Learn (Chris Argyris)
Kanban Maturity Model: Evolving Fit-for-Purpose Organizations (David Anderson & Teodora Bozheva)
Personalidade e Organização (Chris Argyris)
A Integração Indivíduo-Organização (Chris Argyris)

On Becoming a Person (Carl Rogers)
Filosofia do Cotidiano (Luis Felipe Pondé)
A Interpretação dos Sonhos (Sigmund Freud)
Ego is the Enemy (Ryan Holiday)
O Estrangeiro (Albert Camu)
Afirmar-se com Nietzsche (Balthasar Thomass)
Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
The Birth and Death of Meaning (Ernest Becker)
The Culture Code (Daniel Coyle)
O Poder da Simplicidade no Mundo Ágil (Susanne Andrade)
The Denial of Death (Ernest Becker)
Fear and Trembling (Soren Kierkegaard)
All Things Shining (Hubert Dreyfus)
Reflections on Management (Watts Humphrey)
The Great Debate: Edmund Burke and Thomas Paine (Yuval Levin)
Outliers (Malcolm Gladwell)
O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (Olavo de Carvalho)
The Fountainhead (Ayn Rand)
Nietzsche Hoje (Viviane Mosé)
This is Lean (Niklas Modig and Pär Åhlström)
A Ciência da Política: Uma Introdução (Adriano Gianturco)
Vida e Obra de Machado de Assis – Volume 1 (Raimundo Junior)
Crash: uma breve história da economia (Alexandre Versignassi)

Stock Market Investing for Beginners (Michael J. Bloomfield)
The Total Money Makeover (Dave Ramsey)
The Power of Positive Deviance: How Unlikely Innovators Solve the World’s Toughest Problems. (Jerry Sternin)
The Toyota Way to Service Excellence: Lean Transformation in Service Organizations (Jeffrey Liker)
Scrumban Software Maintenance: 5 Steps to Stop Starting and Start Finishing (Nagesh Rao)
Software Maintenance Success Recipes (Donald Reifer)
The Service Startup (Tenny Pinheiro)

O ano começou com muita leitura sobre o tema “manutenção de software”. Confesso que foi bem frustrante. Foram 4 livros sobre gestão ou na área de manutenção ou na área de serviços. Embora todos individualmente tenham seus méritos, foi frustrante não ver nada muito sólido que possa ser usado naqueles projetos de software que, depois de entrarem em estágio de manutenção, vêem sua gestão se tornarem extremamente complicadas e expostas ao risco.

A ausência de literatura que nos ajude a nos organizar nesses casos não me impediu de conectar os pontos necessários e estruturar uma forma de explicar um modelo de gestão capaz de lidar com o risco que corremos nesses tipos de ambientes. Esse esforço foi canalizado para o curso “Gestão Ágil para Softwares em Manutenção”, publicado aqui na plataforma do Software Zen nesse ano de 2019. Com esse curso, eu trabalhei para preencher esse gap e trazer conceitos Ágeis, de Lean, e de Kanban para lidar especificamente com essa problemática.

Assim, depois de um início um pouco frustrante, era a hora de abrir o leque. Economia e Política entraram um pouco em foco no primeiro semestre de 2019. O destaques ficaram por conta do livro Crash: uma breve história da economia, escrito pelo jornalista Alexandre Versignassi) e também do livro “The Great Debate: Edmund Burke and Thomas Paine”. O primeiro, pega na sua mão e te ajuda a entender, em linguagem simples e de forma interessante, os conceitos básicos da economia. É como diz a velha frase encontrada nos livros do Donald Reinertsen: “você pode ignorar o econômico, mas ele não vai ignorar você“. Decidi não ignorá-la nesse ano. O livro é espetacular. Simples, engraçado, interessante e não te deixa na mão na hora que você precisa compreender os conceitos que realmente precisam ser entendidos.

O segundo livro, pela sua densidade, foi difícil de vencer, mas valeu muito a pena. Ele explica e traz reflexões sobre o debate entre o Edmund Burke e Thomas Paine. Basicamente, os criadores conceituais do que hoje se manifesta como “direita” e “esquerda” no espectro político. Foi muito esclarecedor descobrir as ideias e pressupostos que deram origem a esses movimentos modernos. Como elas deságuam de formas bastante diferentes na Revolução Francesa e na Revolução Americana, e como se desenrolam a partir daí. Altamente recomendado!

Na área de gestão, me dediquei de forma intensa a leitura de Chris Argyris. Foi uma grande descoberta e foi tão significativa que montei um webinário de duas horas explorando as questões que ele apresenta na problemática da relação do indivíduo com a organização. O que é necessário para integrar toda uma cultura corporativa com a personalidade e motivação do indivíduo? Esse é o grande desafio. Trazemos nossa personalidade para as empresas e a confrontamos com uma cultura organizacional pré-estabelecida. Saber o que cada um precisa dar ou receber é essencial para o sucesso dessa integração. Assim, três livros viraram grandes fontes de referência para mim nesse ano: Personalidade e Organização; A Integração Indivíduo-Organização; e How to Teach Smart People to Learn.

Alguns livros na categoria “é bom saber” se destacaram: The Culture Code (Daniel Coyle), Outliers (Malcom Gladwell), Thinking in Bets (Annie Duke) e Dark Horse (Todd Rose). The Culture Code começa um pouco fraco, um pouco ingênuo, eu diria, mas depois ganha originalidade e fica realmente bom.

Outliers tem alguns insights interessantes que salvaram o livro. Por um momento parecia apenas um ataque contra a meritocracia, mas que no final se revelou esclarecedor para entendermos vários aspectos “ocultos” do sucesso que não prestamos atenção e que de fato favorecem os outliers para que eles se diferenciem da curva normal de sucesso nas diversas iniciativas humanas. Valeu muito a pena.

Thinking in Bets foi uma bela surpresa. Que os resultados das nossas decisões assumem um caráter probabilístico eu já sabia, mas foi estarrecedor perceber como ignoramos isso e tratamos decisões ruins como erros ao invés do simples resultado de apostas que fazemos. Ler apenas o capítulo de abertura já vai ser o suficiente para mudar a forma como você pensa sobre as decisões que você toma.

Mas, nessa categoria, foi realmente o Dark Horse que se destacou. Um ótimo livro para quem busca viver uma vida mais autêntica, perseguindo e vivendo daquilo que realmente nos preenche. O livro traz à tona os problemas do “caminho padrão” oferecido pela sociedade para o sucesso, oferecendo exemplos de histórias e de alternativas para aqueles que não se encaixam. Para aqueles que não querem participar da corrida “seja como todos os outros, apenas melhor”; e que, como alternativa, preferem jogar o jogo de “se tornar aquilo que são”.

“Tornar-se o que é” é o grande tema da filosofia de Nietzsche, cujos livros (dele ou de outros que o interpretam) estão sempre na minha estante. Nesse ano, foi uma grande satisfação encontrar na livraria um pequeno livreto intitulado “Afirmar-se com Nietzsche” de Balthasar Thomass. É um livro espetacular que sintetiza bem os aspectos realmente relevantes do filósofo alemão que, na minha opinião, responde melhor à questão da construção de propósito existencial no mundo de hoje (eu trato sobre esse tema no curso The Wise Manager).

Mas o melhor ainda estava por vir. O melhor livro do ano estava novamente na categoria filosofia: As meditações do Quixote do filósofo espanhol José Ortega Y Gasset. É difícil descrever a profundidade desse pequeno livro de menos de duzentas páginas (especialmente na primeira parte, ‘A meditação preliminar’, que vai até a página 100).

Gasset abre o livro descrevendo o que ele chama de ‘amor intellectualis‘ (termo originalmente de Spinoza). Ele explica que “se busca o seguinte: dado um fato – um homem, um livro, um quadro, uma paisagem, um erro, uma dor -, levá-lo pelo caminho mais curto à plenitude de seu significado“.

Diferente do ódio, “um afeto que conduz à aniquilação dos valores“, que coloca entre o odiado e o nosso espírito “uma dura mola de aço que impede a fusão, mesmo transitória, entre ambos“. O amor, por outro lado, “nos liga às coisas“. Há no amor, por conseguinte, “uma ampliação da individualidade que absorve outras coisas, que as funde conosco (…), ligando coisa com coisa e tudo conosco, em firme estrutura essencial.” E isso se desenrola apenas nas primeiras quatro páginas do texto.

É essa ligação – das coisas com as coisas, de forma a integrá-las com a nossa individualidade; de forma a nos fortalecer para suportar as mazelas; e nos impulsionar para que possamos conquistar o que precisamos para sermos quem somos. É essa ligação que eu hoje busco em tudo o que eu faço.

Na área de Psicologia, o ponto alto foi a Psicologia Humanista de Carl Rogers. Em ‘On Becoming a Person’, Rogers descreve um pouco do seu modelo de construção individual centrado na promoção da autenticidade dos indivíduos por meio dos seus relacionamentos. Ele nos convida a estruturar cada um dos nossos relacionamentos de modo que o seu propósito seja o crescimento pessoal daqueles com as quais nos relacionamos. A pergunta que ele faz é: ‘Como eu posso proporcionar um relacionamento com essa pessoa de forma que ela possa usá-lo para seu próprio crescimento pessoal?‘. Nas palavras de Carl Rogers:

Não importa se você chama de ‘crescimento pessoal’, ‘auto-realização’, ou ‘andar para frente’… Esse é o princípio norteador da vida, e é, em última análise, a tendência pela qual toda a psicoterapia depende. É o impulso evidente em toda a vida orgânica e humana – expandir, se estender, tornar-se autônoma, desenvolver-se, amadurecer – a tendência para expressar e ativar todas as capacidades do organismo, no sentido em que tal ativação melhora o organismo, a si mesmo.

Rogers, On Becoming a Person, página 35.

Esse trecho está no capítulo 2, que estabelece a ideia central, mas os melhores capítulos são os capítulos: 3 “The Characteristics of a Helping Relationship”; 6 “What it Means to Become a Person”; e 8 “To Be That Self Which One Truly Is: A Therapist’s View of Personal Goals”. Nesse último, ele faz suas reflexões sobre as perguntas mais inevitáveis, e também mais difíceis, pela qual cada indivíduo uma hora ou outra fará para si mesmo: ‘Qual é o meu objetivo na vida?’, ‘Para quê faço o que faço?’, ‘Qual é o meu propósito?’.

Carl Rogers também me ajudou a encontrar toda uma nova área da psicologia que eu não conhecia: A Psicologia Humanista, que enfatiza a nossa tendência natural à busca pela auto-realização, e a relação filosófica disso com a angústia de resolver o problema de como viver uma boa vida.

Foi um ano de boa literatura também. Machado de Assis, Albert Camus, Mary Shelley e Ayn Rand. Machado foi definitivamente o gênio literário brasileiro. O nosso Dostoiévski. O problema é que o lemos apenas no ensino médio. Absorvemos apenas as histórias e, com isso, deixamos de lado a profundidade do que elas contam. Memórias Póstumas de Brás Cubas usa a história de uma vida para lhe deixar um único, mas poderoso ensinamento. Aquele que você vai encontrar na última frase do livro. Em um capítulo que ele mesmo descreve como sendo ‘inteiramente de negativas’. Cubas não fez, não foi, não se tornou. A vida pode ser miserável, e se for, será por causa das coisas que não fizemos.

Ler Frankenstein de Mary Shelley foi simplesmente espetacular. Um clássico sobre o significado da existência humana, sobre a emergência do mundo moderno, a arrogância do novo ser humano, o narcisismo de quem quer mudar o mundo, o ilusório domínio de causa-consequência (que vivemos até hoje), e a lista de significados é extensa. O que posso dizer é que o que conhecemos hoje como Frankenstein (que, por sinal, não é o monstro no romance), é uma distorção grotesca do legado que a Mary Shelly nos deixou. Ler o livro é a única forma de entender isso.

Por fim, o último livro do ano foi ‘A Vida Intelectual’ do Sertillanges. O livro que eu mais precisava ler certamente. Segundo as palavras do autor: “para aqueles que pretendem fazer do trabalho intelectual sua própria vida, tanto os que têm todo seu tempo para dedicar ao estudo, como os que, empenhados em suas ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o desenvolvimento profundo do espírito.”

Há algo de valioso na educação que nos passa desapercebido quando nos agarramos a sua mera utilidade material. Reduzimos a nossa formação a um ineficaz instrumento de certificação social e, com isso, perdemos quase que inteiramente o seu real valor: nos ajudar a sermos quem podemos ser.

Como diz Sertillanges:

O estudo deve ser um ato de vida, deve ser de proveito para a vida, deve estar impregnado de vida.

Para todos que acreditam na educação como o caminho para uma vida melhor, desejo descobertas intelectuais impregnadas de vida como essas. Que 2020 seja mais um ano onde conseguimos nos tornar um pouco mais daquele que verdadeiramente somos.