Manutenção Ágil – Parte Final: Combatendo a ignorância sistêmica

Na parte 3 dessa série de artigos sobre gestão Ágil aplicada a softwares em manutenção, eu descrevi brevemente os riscos envolvidos em um projeto de software em manutenção. Um dos grandes benefícios de trazer essa visão de riscos para um projeto dessa natureza é nos permitir aplicar o pensamento sistêmico para desenhar a solução necessária.

Uma das grandes referências de Systems Thinking no mundo é Donella Meadows. Em palestra dada na Universidade de Michigan, ela explica o poder desse pensamento e então constata:

Todos nós produzimos o resultado que não queremos no sistema. E nós o fazemos fora da resposta racional às restrições, incentivos e punições a qual o sistema nos sujeita. A pergunta que deveríamos fazer é: ‘o que há de errado com o sistema?’, e não ‘o que há de errado com as pessoas que estão nele?

Donella Meadows

Veja o vídeo com o trecho destacado da palestra dela:

Mais tarde Peter Senge, um dos grandes admiradores de Dana (como era conhecida entre os amigos), repete a mesma ideia em uma palestra na Universidade de Aalto na Finlândia, intitulada: “Systems Thinking for a Better World” (Pensamento Sistêmico para um Mundo Melhor).  

Nessa palestra, Senge se refere a Dana e diz: “Ninguém quer produzir os resultados sistêmicos que nós consistentemente produzimos”. Logo depois ele conclui: “E essa é a definição arquetípica do que eu chamo de inteligência sistêmica ou, vamos dizer, da ignorância sistêmica”.

A ideia por trás disso é simples. Os sistemas se organizam em torno de um propósito que nem sempre é o que esperamos. Há uma “inteligência” inerente ao sistema que o conduz rumo a uma direção. Por outro lado, sob o ponto de vista dos elementos desse sistema, eles interagem entre si completamente ignorantes sobre a resultante final de suas ações. 

Individualmente, se cada agente pudesse decidir, é claro que não contribuiria para um resultado indesejado. Mas contribui, e o faz inconsciente do resultado final; o faz porque é ignorante do sistema a qual faz parte, e inconsciente da responsabilidade de suas decisões.  

Em um time de manutenção, as demandas são sempre o foco. Cada um faz sua parte. Eu, como gestor, garanto que todo mundo está trabalhando. Já eu, como desenvolvedor, me esforço para resolver cada demanda que me passam no menor tempo possível. Quando termino, pego a próxima, e repito esse ciclo indefinidamente. O que está acontecendo a minha volta eu não sei exatamente, mas acredito que o meu dever é fazer a minha parte. Essa é a postura de um ignorante sistêmico. Um título que não vai na nossa assinatura de e-mail, mas que todos nós já carregamos em algum momento da vida.

A questão é que, nesse contexto, não existe “a minha parte”. Na verdade, essa visão analítica, que nos incentiva a quebrar o projeto em partes e deixar cada um fazer a sua, é a origem do problema. É ela que nos leva a tentar inutilmente gerir a infindável quantidade de demandas que abarrotam nossos backlogs. É ela que nos leva a procurar uma fórmula que nos permita processar essas demandas o mais rápido possível, e em maior quantidade, tornando a eficiência o valor mais alto quando a natureza do trabalho demanda o uso de outra perspectiva

Na visão sistêmica, o interesse de todos é no todo. Para isso, busca-se exatamente o oposto da ignorância sistêmica: a consciência sistêmica. As decisões são tomadas não para manter demandas sendo produzidas em maior quantidade e em menor tempo, mas para garantir que a demanda certa seja entregue no tempo certo. O valor mais alto é o da eficácia. Manter o sistema atendendo o seu propósito de forma a manter sob controle os riscos envolvidos é o novo foco, a nova perspectiva. 

É olhando dessa forma para o seu projeto, com consciência sistêmica, que você conseguirá domar a imprevisibilidade e o caos potencial que nele reside (e que tira o seu sono à noite).

Embora não haja espaço para a demonstração dos detalhes sobre como fazer isso em uma pequena série de artigos como essa, eis que eu deixo para você a direção do caminho. Os detalhes sobre como fazer isso, você pode ver no curso de “Gestão Ágil para Softwares em Manutenção” que deve começar hoje às 20hs.

Métodos Ágeis podem sim ser a fonte de apoio que você necessita para seguir nessa direção, mas precisarão ser ajustados para que possam se aderir à perspectiva de gestão de risco discutida aqui. Isso demanda a formação de um bom repertório, e entendimento sobre como utilizá-lo. Regras, cerimônias, métricas, estratégias, coordenação tática, tudo isso pode ser organizado de maneira a lidar com o ambiente volátil e imprevisível que temos em nossos projetos de manutenção, e é isso que precisa ser feito.