O que importam são as interações, não as ações

O Russel Ackoff, um dos autores mais citados e referenciados em meus cursos aqui no Software Zen, certa vez abriu uma de suas palestras com uma anedota (isso foi na College of Business Administration na Universidade de Cincinnati, em 1995). Eu sou péssimo para contar piadas, então vou resumir essa; e o farei sem nenhuma pretensão que você ria no final, mas o farei contando com uma leve expectativa de que a moral da história sirva bem para abrir esse artigo.

“Três náufragos estão perdidos em uma ilha deserta já há meses quando avistam uma garrafa estranha. Um deles abre a garrafa e dela sai um gênio com poderes mágicos e disposto a conceder um desejo para cada um deles. O primeiro, de pronto, diz que gostaria de estar com sua família assistindo ao Ballet Bolshoi naquele mesmo instante. O gênio concede o desejo e ele desaparece em um piscar de olhos. O segundo náufrago se empolga e logo diz que gostaria de estar em Nova Yorque, jantando com sua namorada. O gênio estala os dedos e ele também some de imediato. Quando olhou para o último náufrago, este não dizia nada. O gênio, apressado, começou a ficar impaciente. Afinal, queria aproveitar logo a vida fora da garrafa:

– Vamos! Diz logo o que você quer, se não eu vou embora – disse o gênio apressado.

– Ah… – disse o último náufrago após um grande suspiro – eu já sinto tanta falta dos meus companheiros… O que eu queria mesmo era que eles estivessem aqui comigo nesse momento.”

Segundo Ackoff, essa anedota te ajuda a entender a diferença entre se importar apenas com ações versus se importar com as interações.

A falta de entendimento sobre os sistemas e como eles funcionam, nos leva a resultados ruins, e parte disso se deve ao fato de nos concentrarmos muito mais nas ações dos seus elementos do que nas suas interações.  

Nesse momento, aqui no Software Zen, está em andamento o curso de “Gestão Ágil para Manutenção de Produtos de Software”. Como em outros programas, para explicar o funcionamento de um ambiente segundos as novas leis da Agilidade e da eficácia, é necessário contrastá-lo com o que fazíamos antes (ou fazemos agora, dependendo da sua posição atual nesse processo de transformação que vivemos). Por falta de um nome melhor, denominamos esse outro jeito de “gestão tradicional”.

Em um dos trechos da primeira aula, eu faço uma análise de como um sistema de trabalho se parece quando não há o devido cuidado com as interações que nele se apresentam. Logo em seguida, eu explico o impacto do foco excessivo que essa gestão tradicional mencionada a pouco nos leva a ter em ações, e os problemas gerados pela falta de cuidado com as interações. Veja um pedacinho da aula:

O pensamento sistêmico é a base para o surgimento dos principais métodos de gestão que hoje são alvo de tanta procura por gestores e líderes em todo o mundo. Gestão Ágil, Lean, Kanban, Scrum, Design Thinking, Lean Startup, Management 3.0, LeSS e tantos outros.

O mundo do século XXI é novo. Nossas escolas ainda não tiveram tempo para se atualizar. Iniciativas como o Software Zen nos ajudam a fazer essa ponte enquanto o que se ensina por aí ainda não é o que se precisa fazer na prática.

Essa nova forma de pensar nos permite olhar para o mundo e enxergar sistemas. Estes são recortes conceituais da realidade que apresentam propósito. Pense no sistema imunológico do seu corpo. Ele não é um recorte físico. Você não pode extraí-lo do corpo de alguém e colocá-lo na mesa para estudá-lo. Mas ele está lá. Existe como uma importante abstração cujo contorno conceitual define-se pelo propósito que cumpre. Esse recorte não só é bastante útil, como primordial para entender o funcionamento do organismo como um todo. 

Assim, do sistema imunológico, não se extrai “partes”. Nele se nota elementos interagindo para o atingimento de um propósito relevante para o sistema superior da qual ele depende. Pense no sistema que mantém um produto de software da mesma forma. O sistema que atua mantendo o seu produto de software operando não são definidos pela soma individual do trabalho de cada pessoa que trabalha ali, mas pelo produto das interações do elementos técnicos e sociais que interagem entre si para que ele cumpra seu propósito.

A gestão tradicional confia em um modelo de controle, supervisão e incentivo para as ações realizadas por cada indivíduo. Como o comportamento emerge a partir das interações, é óbvio que não há como obter qualquer resultado diferente com tal enfoque. Mais controle, mais supervisão e mais incentivos individualizados só vão trazer mais do que não se quer.

Analise as formas mais comuns de agir quando não se obtém o resultado que se precisa das equipes:

  • Vamos trazer mais gente para o projeto;
  • Vamos fazer mais horas extras;
  • Vamos fazer alguns mutirões no fim de semana;
  • Vamos controlar o ponto ou fiscalizar o cumprimento da carga horária diária com um timesheet;

Eu poderia continuar listando inúmeras formas como essas (algumas são extremamente criativas). Mas só estes exemplos já nos dão uma percepção do padrão comum que se percebe ali. Todas interferem no volume de ações que cada indivíduo executa, e nenhuma na forma que os elementos interagem. Como se fazer mais, nos levasse necessariamente a fazer melhor. O que acontece na prática é simples: quanto mais se faz a coisa errada, pior fica.

É somente com uma visão sistêmica que um gestor entenderá porque seus problemas não são resolvidos contratando mais gente, fazendo horas extras ou marcando mutirões para o sábado. Ter como meta zerar o backlog da semana passada é só uma maneira ingênua de não olhar seriamente para o fato de que um backlog ainda maior o estará esperando nas semanas seguintes.

Autores como Donella Meadows, Russel Ackoff e Peter Senge nos oferecem toda uma nova conceitualização em torno do Pensamento Sistêmico para que possamos entender isso. 

No Software Zen, eu simplifico e articulo essas ideias, trazendo-as para sua realidade, para que você possa entender os métodos e aplicá-los de acordo com o que cada contexto exige.

A programação de cursos do Software Zen traz várias opções pra você aprender mais sobre o pensamento sistêmico:

  • Ainda dá tempo de entrar na turma de Manutenção Ágil que está rolando agora;
  • A melhor opção para mergulhar nessa nova forma de pensar é, sem dúvida, o programa principal do Software Zen que começa no dia 22/04.
  • Em maio, teremos mais uma edição do curso de Liderança Sistêmica com o psicólogo Henrique Santana. Uma ótima opção para quem precisa expandir suas habilidades para lidar com pessoas de uma forma consciente e produtiva.
  • E, finalmente, em julho teremos a 3a Edição do Wise Manager onde o pensamento sistêmico também é destrinchado no seu nível histórico e filosófico. É no Wise Manager que você descobre como o mundo é, porque fazemos o que fazemos, e o que fazer para lidar com a realidade que se apresenta.